Wednesday, October 3, 2007

Na Pele


Fui-te contando histórias e foste ouvindo. Escutavas, aliás, com a forca de um leao. Tu já tinhas visto leoes e eu nao. Até chegar a ti só tinha visto obras de arte, paredes de cidades, edificios bem altos e muito fumo azul.

Fui correndo contigo, atrás de porcos - havia mesmo porcos no meio de África. Fui saltando pontes, mas nao haviam pontes, havia muita terra, que se metia debaixo das unhas e se entranhava nas botas. Fui matando mosquitos pela noite dentro, fugi de ciclones entre duas estradas, vi o sol a por-se entre duas montanhas. Fui pegando na terra e espalhei-a nos bracos. Depois nas pernas e depois na cabeca. Era terra vermelha, como nunca um ocidental poderia ter visto antes.

Andei contigo em autocarros antigos, do tempo dos colonos e dos teus avós. Chamavas-lhes machimbombos, outras vezes chapas. Fui sempre de mochila nas costas e de caderno no bolso, fita-cola na mao para nao perder nada. Nada de nada.

Pus-te nas cavalitas e corri de novo, soube do teu nome e dos teu sete irmaos. Tive saudades de casa quando saía para longe, na parte de trás da carrinha a levar com o pó e o cheiro das queimadas.

Subi aos telhados das igrejas e palhotas, nunca tive medo de cair ao chao. Porque o terreno parecia tao firme, naquele estado tosco de irregularidade perfeita.
Bebi café na tua frente, fosse batido à mao ou fresco do matagal. Comi muito, comi demais porque tinha fome, muita fome e muita sede. De tudo e de tudo e de muito mais. Queria tudo dentro meu bolso.

Tu nao sabias, porque eras pequeno. Mas eu comecava a saber porque já era maior. Que a partir de ti tudo seria diferente, que me fazias mais mulher e mais pessoa, que nunca mais nada igual, que nunca mais totalmente ocidental.
Tu nao sabes, porque vives longe. Nem tu nem os teus irmaos nem os meus irmaos. Foste África e fizeste África. Como se fosses arquitecto e criasses renders, pontos e pontos e pontos dentro do meu corpo. E tudo, menino, a fazer crescer em mim raizes, de embondeiro ou café. Para nunca mais ser igual a antes.

4 comments:

Makuu said...

peco perdao pela falta de acentos e confusao de frases. mas é teclado estrangeiro e cansaco de cidade grande.

gripes said...

Para nunca mais ser igual a antes.
E nem os teus, nem os meus, e nem os de ninguém percebem.
Aliás, alguns meus até percebem.
Afinal, alguns também nunca mais foram iguais.

SL said...

Nunca mais nenhum de nós foi como antes.

Graças por isso ter sido a minha vida, Graças por vocês fazerem parte dela, graças pela xima e pelo sol, pelas palhotas, mosquitos, medos insónias. conversas, músicas e caixas abertas. Graças por infinitas coisas que não cabem em posts nem em palavras!

Sortudos nós!

Anonymous said...

Ai está ela de volta!! :)

Impressionante... qualquer comentário ao teu texto seria como(como alguém uma vez disse) "acender uma vela para iluminar o sol"...

;)

D